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O pânico nos bancos está certo. No Itaú, não.

Entre 4 e 11 de agosto, o setor bancário brasileiro perdeu R$ 112,5 bilhões em valor de mercado em cinco pregões. O Itaú (ITUB4) sozinho respondeu por R$ 32,8 bilhões dessa perda, mais do que qualquer outro banco do índice, incluindo o BTG (-R$ 29,4 bi), o Bradesco (-R$ 13,7 bi) e o Banco do Brasil (-R$ 9,8 bi). A ação caiu 11,1% só em agosto, contra apenas -0,34% no acumulado do ano até então: em uma semana, o mercado apagou praticamente todo o ganho de 2026.

A pergunta que motivou este post: isso tem fundamento, ou é só fluxo batendo indiscriminadamente no maior nome do setor porque é o mais líquido pra vender rápido? A resposta, depois de olhar os números, não é nem “é tudo pânico” nem “está tudo justificado”. É mais interessante que isso.

O que o Itaú entregou, isolado

O resultado do 2º trimestre de 2026, divulgado em 4 de agosto, não tem nada de alarmante:

Indicador 2T26 Variação
Lucro recorrente R$ 12,4 bi +7,8% a/a
ROE 24,3% um dos maiores do setor
NPL 90 dias 1,9% estável há 6 trimestres seguidos
Custo de crédito 2,7% estável
Carteira de crédito expandida R$ 1,52 tri +9,6% a/a
Índice CET1 (capital) 12,3% +30 bps no tri
NPL 15-90 dias (indicador antecedente) 1,8% +0,1 p.p., explicado pelo fim de carência de programa do governo e sazonalidade

O único ponto real de atenção foi o corte de guidance para receita de tarifas e seguros, de uma faixa de 5%-9% de crescimento para 2%-5%. Isso é sobre desaceleração de receita de serviços, não sobre deterioração de crédito. Nenhum desses números, isoladamente, explica uma queda de 11% no preço em uma semana.

O que É um ciclo de crédito de verdade (e por que ele existe agora)

Aqui vale abrir o conceito, porque é o que separa uma leitura rasa de uma rigorosa. Bancos reportam dois tipos de indicador de inadimplência: o NPL 90 dias, que é o padrão regulatório e mede o que já está formalmente em atraso longo, e indicadores de atraso curto (15-90 dias, ou “INAD+30”), que são antecedentes: capturam a deterioração antes dela virar um NPL 90 dias oficial. Nenhum indicador isolado resume um ciclo de crédito. A leitura combina concessão de crédito, inadimplência em suas várias janelas, custo de crédito, confiança, emprego e a própria trajetória da Selic, que afeta inadimplência com defasagem de 6 a 9 meses.

E aqui está o ponto que muda o jogo: a Selic ficou em 15% ao ano (o maior patamar em quase 20 anos) de julho de 2025 a janeiro de 2026, parada por sete meses, antes de o Copom começar a cortar (hoje em 14%, após a quarta queda seguida em 5 de agosto). Com a defasagem de 6-9 meses, o efeito pleno desse platô de 15% está batendo na economia real agora, em meados de 2026, mesmo com a Selic já em trajetória de queda.

Isso não é opinião, é o que os dados mostram:

  • Serasa: 83,9 milhões de brasileiros inadimplentes em julho de 2026, recorde histórico da série, subindo todo mês do ano.
  • Pessoa jurídica: 8,7 milhões de CNPJs negativados (jan/26), dívida média de R$ 23,1 mil, cerca de 7 restrições por empresa.
  • Recuperação judicial: recorde em 2025, com 2.466 empresas em processo (+13% a/a) e 977 novos pedidos (+5,5% a/a). O 4º trimestre de 2025 sozinho teve 510 pedidos, o maior volume trimestral já registrado. O agronegócio, historicamente resiliente, respondeu por quase 2 mil desses pedidos.
  • Indústria: produção caiu 1,8% em junho, segundo mês seguido no negativo.

Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, chamou atenção pra isso em entrevista de 24 de julho: disse trabalhar com a hipótese de recessão em 2027, citando exatamente esse tipo de sinal (mais de 80 milhões de inadimplentes, empresas com dificuldade de honrar ou rolar dívida) como indicador antecedente clássico. Ele também apontou que o próprio governo está encurtando o prazo médio da sua dívida, o que lê como sinal de estresse fiscal, e criticou o arcabouço fiscal diretamente. A recomendação dele é objetiva: preservar caixa, evitar endividamento novo.

Conclusão parcial: o ciclo de crédito é real, tem base em dado concreto e verificável, e Fraga não está exagerando. Isso muda a pergunta. Não é “existe risco?”. É “onde exatamente esse risco está concentrado, e o preço está diferenciando isso?”.

Onde a dor está de verdade, banco por banco

Itaú (ITUB4) Banco do Brasil (BBAS3) Santander (SANB11)
Lucro 2T26 R$ 12,4 bi (+7,8% a/a) R$ 3,9 bi (+3,3% a/a, acima do esperado) R$ 3,0 bi (-17,6% a/a, abaixo do esperado)
ROE / ROAE 24,3% 8,3% 12,5% (vs. 14,5% esperado)
Indicador antecedente de crédito NPL 15-90d: 1,8% (+0,1pp, explicado) INAD+30d agro: 8,97% (de 7,35% no tri anterior, +162 bps em 3 meses) Write-offs: +27% no tri
NPL 90 dias 1,9% (estável, 6 trimestres) 6,27% no agro (+5 bps, estável) 3,3% (estável)
P/L 9,01x não aplicável (lucro pressionado) 6,94x
P/VP 1,94x 0,61x (abaixo do valor patrimonial) não disponível
Dividend yield 12m 9,26% 2,87% 9,60%
Perda de valor de mercado (4-11/ago) -R$ 32,8 bi (a maior) -R$ 9,8 bi (a menor entre os grandes) incluído no tombo setorial

O padrão fica claro quando você olha o indicador antecedente, não o NPL 90 dias (que é tardio por natureza). No Banco do Brasil, o INAD+30d do agronegócio saltou 162 pontos-base em um único trimestre, o sinal mais forte de deterioração ativa entre os três. No Santander, o próprio Itaú BBA classificou o problema como específico da instituição: “a leitura para os outros bancos é limitada, já que o Santander apresenta trajetória de receita mais fraca há anos e enfrenta problemas de inadimplência específicos”. No Itaú, o único indicador antecedente que se moveu (NPL 15-90d) subiu 0,1 ponto percentual, e o próprio banco atribuiu o movimento a fatores técnicos identificáveis (fim de carência de programa governamental, sazonalidade), não a uma quebra estrutural de qualidade de carteira.

Mesmo assim, o Itaú foi o banco que mais perdeu valor de mercado em reais, e de forma isolada, mais do que BB e Bradesco juntos.

O preço não está diferenciando

Se o mercado estivesse precificando risco de crédito específico, o BB, com o pior ROE (8,3%) e a deterioração mais aguda no indicador antecedente, deveria estar sendo o mais punido proporcionalmente. Em vez disso, ele já negocia a 0,61x o valor patrimonial (ou seja, já embute um desconto de crise há tempos) e foi o que menos perdeu em valor absoluto na semana. O Itaú, com o book mais limpo dos três e o ROE mais alto, foi o que mais perdeu.

Isso é consistente com uma explicação de fluxo: o Itaú é o banco mais líquido e o de maior peso no Ibovespa, então é o primeiro a ser vendido quando um gestor estrangeiro decide reduzir exposição ao Brasil como bloco. Cerca de R$ 5,5 bilhões saíram em fluxo estrangeiro só no início de agosto. Some a isso o pano de fundo fiscal que já vem dos posts anteriores deste blog: a NTN-B 2035, título de referência para juro real longo, está em 8,10%, patamar historicamente esticado para o Brasil (o normal em ciclo saudável fica mais perto de 5,5%-6,5%). Se a inflação está convergindo para a meta (Focus projeta 5,02% em 2026, 4,22% em 2027 e 3,80% em 2028, os dois últimos já dentro da banda de tolerância) e a Selic está em trajetória de queda (Focus projeta 13,75% no fim de 2026, 12% em 2027, 10,5% em 2028), o juro real longo deveria estar cedendo junto. Não está. Isso é o mercado precificando risco fiscal e eleitoral (as eleições são em outubro de 2026), não risco de crédito bancário.

O consenso de mercado para ITUB4 também não confirma a tese de deterioração: de 13 a 17 casas que cobrem o papel, entre 10 e 13 recomendam compra, 0 recomenda venda. Os preços-alvo para o fim de 2026 giram entre R$ 45 e R$ 52, com XP em R$ 51,00, Bradesco BBI em R$ 48,50 e Goldman Sachs em R$ 48,00. A mediana das casas fica próxima de R$ 48,50-49,00. Com a ação a R$ 38,38, isso implica um upside de aproximadamente 26% até o preço-alvo médio, mesmo depois do corte de guidance de serviços.

A leitura da Sarisa

Existe um ciclo de crédito real rodando no Brasil, com evidência concreta e verificável: recorde de inadimplência pessoa física, recorde de recuperação judicial, indústria em dois meses seguidos de queda, e um economista da estatura de Armínio Fraga apontando pra isso publicamente com dados, não com opinião solta. Ignorar isso seria ingênuo.

Mas dentro desse ciclo, a dor não está distribuída igualmente, e os indicadores antecedentes (não o NPL 90 dias, que é tardio) mostram exatamente onde: agronegócio via Banco do Brasil, e um problema específico e antigo de trajetória de receita no Santander. O Itaú, medido pelo próprio indicador que deveria acender o alerta primeiro, mostra um desvio pequeno e explicado, não uma ruptura.

A estrutura, aqui, importa mais que a narrativa do dia. Separar indicador antecedente de indicador tardio é o que distingue um ciclo de crédito real de um pânico de fluxo generalizado. Neste caso, o preço do Itaú caiu junto com o do banco que realmente tem um problema de crédito ativo, sem diferenciar que o problema não é o mesmo.

Isso não é recomendação de compra ou venda. É uma leitura de que o preço, no caso específico do ITUB4, parece estar precificando um risco setorial que os próprios indicadores da companhia não confirmam até aqui. Quem carrega a posição faz bem em monitorar o NPL 15-90 dias do Itaú no próximo trimestre, não só o 90 dias: é ali que a próxima confirmação, ou desmentido, da tese vai aparecer primeiro.

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